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segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Crítica: Muçulmano hostilizado retrata ‘Jesus histórico’ com equilíbrio

Reza Aslan
Havia tantos fragmentos da cruz de Jesus espalhados pelas igrejas medievais que os mais desconfiados brincavam que, se todas as lascas fossem verdadeiras, ele teria sido crucificado em cima de uma floresta inteira.

Se a mesma conta for feita para o papel gasto em livros sobre o personagem histórico por trás do Cristo da fé, a floresta fica do tamanho da Amazônia. Mais um livro nesse filão faz alguma diferença?
Se você for um recém-chegado ao interminável debate sobre o “Jesus histórico”, vale a pena dar uma olhada em “Zealot: The Life and Times of Jesus of Nazareth” (“Zelote: A Vida e a Época de Jesus de Nazaré”), obra do iraniano-americano Reza Aslan que está na lista de mais vendidos nos EUA após a hostilização do autor na rede de TV Fox News.
Em uma entrevista, a apresentadora da Fox insistiu por dez minutos em questionar por que Aslan, um muçulmano, escreveria sobre Jesus. Na verdade, Aslan, que já foi cristão evangélico, consegue resumir com clareza boa parte dos resultados de dois séculos de pesquisa sobre a historicidade do protagonista dos Evangelhos. O livro será lançado no Brasil pela Zahar.
UM JUDEU MARGINAL
capa do livro
Aslan mostra que Jesus foi um profeta galileu de carne e osso, que realmente foi crucificado em Jerusalém por volta de 30 d.C. (quase nenhum estudioso sério aceita a ideia de ele era apenas uma figura mítica).

Como dizem os evangelistas, ele de fato teve 12 apóstolos –número provavelmente escolhido para representar a reconstituição das 12 tribos de Israel no final dos tempos.
A partir daí, a argumentação do livro parece ficar mais controversa. Para Aslan, um pregador totalmente desinteressado em relação à política de seu tempo não teria recebido a sentença da crucificação –suplício que os romanos costumavam reservar para quem participava de insurreições contra o Império.
Os “ladrões” crucificados ao lado de Jesus na verdade são designados com o termo grego “lestes”, que também poderia ser traduzido como “guerrilheiro”.
Faz sentido, mas o escritor provavelmente vai longe demais ao sugerir que Jesus flertou com a ideia de uma revolta armada contra Roma.
E um tanto forçada é a cisão radical que ele pinta entre os discípulos originais de Cristo e o apóstolo Paulo, para Aslan o único responsável por transformar o cristianismo nascente em algo mais do que uma seita judaica.
Um ponto que diminui os méritos do livro: não há nenhuma discussão sobre os métodos que os historiadores usam para distinguir história de teologia nos Evangelhos.
Metodologia pode ser chata, mas é essencial para mostrar que especialistas não usam apenas achismo na hora dessas avaliações.

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