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quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Há 20 anos, Nirvana fazia "pior show" da carreira no Hollywood Rock do grunge; relembre

Em novembro de 1992 os fãs brasileiros de rock ganhavam uma boa notícia: a confirmação de que o Nirvana viria ao Brasil, pela primeira vez, dali a dois meses. O grupo de Kurt Cobain, Dave Grohl e Krist Novoselic, principal nome da tão comentada cena grunge de Seattle, acabava de ser confirmado para o Hollywood Rock e faria, em São Paulo, seu primeiro show em três meses. O público, então acostumado a atrações internacionais defasadas, finalmente veria uma banda nova e em pleno auge.

Mais do que ver de perto o Nirvana, os fãs ainda teriam chance de assistir a Alice in Chains, L7 e Red Hot Chili Peppers --a nata do rock alternativo do momento-- no mesmo festival. O Hollywood Rock de 1993, em sua edição mais famosa, aconteceu nos dias 15, 16 e 17 de janeiro daquele ano --com ingressos que variavam entre 140 mil e 220 mil cruzeiros, algo em torno de R$ 50 e R$ 80--, e uma semana depois no Rio de Janeiro.

O show do Nirvana no Hollywood Rock sempre dividiu opiniões de fãs, da crítica e dos entusiastas em geral. Há quem diga que a apresentação não foi digna de seu potencial e que a banda não estava nem aí para o público. Outros defendem que o Nirvana fez um verdadeiro show de rock, imprevisível e sem regras. E a medida que o tempo passa, mais importância atribui-se àquela performance e mais clássico torna-se o show.

Na época, uma pesquisa do Datafolha registrou a opinião do público do festival e 71% dos entrevistados classificaram o show do Nirvana entre bom e ótimo. Para 37%, a banda foi a melhor daquela noite, enquanto a maioria (39%) preferiu o L7.

Abaixo, personalidades que estavam naquele dia relembram a pedido do UOL a passagem da banda pelo festival --e fora dele. Da chegada no aeroporto aos bastidores e festas pós-show, veja os depoimentos de João Gordo (vocalista do Ratos de Porão), Zeca Camargo (apresentador do "Fantástico", que na época trabalhava na MTV), Andreas Kisser (guitarrista do Sepultura que acompanhava os integrantes do Alice In Chains), Pablo Miyazawa (editor-chefe da revista "Rolling Stone Brasil") e Andria Busic (vocalista do Dr. Sin).

Se o show foi uma bos**, foi por minha culpa e dos meus amigos
João Gordo, vocalista do Ratos de Porão


A minha história com o Nirvana começa em 1989, quando o Ratos de Portão fez a primeira turnê europeia. A gente tocou em uma casa em Amsterdã com uma banda americana de hardcore chamada Scream, que tinha Dave Grohl na bateria. Lá a gente conversou, jantou junto e criou uma amizade. Só quando o Nirvana explodiu com "Nevermind" foi que eu vi que era o mesmo cara.

Quando teve o Hollywood Rock de 1993, eu e minha namorada na época (Alê Briganti, da banda Pin Ups) colamos no Maksoud Plaza (hotel onde as bandas estavam hospedadas) para falar com o Dave, mas ele ainda não tinha chegado. Quando entrei no hotel, vi os caras do Red Hot Chili Peppers e um gordão circulando que eu sabia que conhecia de algum lugar. E era o Big John, guitarrista do Exploited. Por coincidência, ele era amigo de uma amiga minha e também era roadie do Kurt Cobain. Pronto, eu estava em casa.

Aqui em São Paulo o show foi uma doideira só. Assisti a tudo do palco, apresentei o Nirvana para o público como "a maior banda underground de todos os tempos". E o show do Nirvana foi uma bos**, horrível, tudo desafinado. Eles estavam de saco cheio da vida, dos 20 milhões de dólares que tinham ganhado, estavam odiando tudo, aquele auê e a bajulação em cima deles. E aí falamos para eles que aquele era um festival capitalista, de uma marca de cigarro, e aí eles começaram a zoeira. Se o show foi uma bos**, foi por minha culpa e dos meus amigos.

O que ficou marcado para mim foi esse contato com o Kurt. Ele era muito depressivo e não sorria em nenhum momento. Durante todo o tempo ele usou uma camiseta em que estava escrito à mão com caneta: "I hate myself and I want to die" (eu me odeio e quero morrer). Ele não tinha vontade de viver, era muito triste, só queria saber de heroína. Depois do festival fomos para uma festa da Der Tempel, na Augusta. Estávamos em um Corcel 2 azul claro, eu com o Flea, o Kurt, a Courtney Love, a baterista do Hole (Patti Schemel), minha namorada na época e mais alguém. Chegamos na balada, fecharam a porta e a festa começou às 4h e foi até umas 11h. Estava tocando Beatles, músicas dos anos 60, e eles piraram. E só ali eu vi Kurt dando risada, brincando, rolando no chão.

O que eu tinha visto era o nascimento da faixa "Milk It"
Zeca Camargo, apresentador do "Fantástico", ex-apresentador do "MTV no Ar"


Uma das coisas mais frustrantes de cobrir um super evento de rock --um festival como foi o Hollywood Rock, por exemplo-- é que você não consegue assistir a quase nada dos shows. Essa é a realidade. Em janeiro de 1993, quando o melhor do rock alternativo estava passando pelo Brasil, a gente saía cedo para o local dos shows, ia para os bastidores e... ficava esperando. Isso mesmo, ficava esperando algum artista chegar e topar dar uma entrevista.

Em compensação, quando você conseguia ver alguém no palco, era de um ponto de vista privilegiado: da coxia --geralmente apenas a alguns metros de um de seus ídolos. Exatamente como aconteceu com o Nirvana, naquela performance antológica de Kurt Cobain. Mesmo antes de a banda entrar oficialmente no palco, porém, ela também foi responsável por um momento marcante. Durante a passagem de som, com as câmeras desligadas (na era pré-smartphone, gravar qualquer coisa nessa hora era estritamente proibido), Kurt se virou para Krist Novoselic e disse algo como: "Ei, Kris, escuta isso!"

Era uma bela sequência de guitarra, seguida de um grito tão assustador como só o próprio Cobain era capaz. "Muito bom", respondeu Krist, "manda de novo!". E Kurt repetiu o som umas duas ou três vezes, sempre com um urro que vinha sei lá de onde. O que eu tinha visto, como pude comprovar alguns meses depois, quando "In Utero" foi lançado, era o nascimento da faixa "Milk It".

Mas nem tudo acontecia ali, em volta do palco. Na cobertura que a MTV (onde eu trabalhava na época) fazia do evento, a ideia era sempre tirar o artista do contexto e mostrá-lo de um jeito diferente. Foi assim que fomos comprar biquínis em Copacabana com as garotas do L7 --uma das matérias mais bizarras que fizemos! Também passamos por um passeio frustrado de helicóptero pela baía de Guanabara com o Alice In Chains (Jerry Cantrell estava, digamos, meio indisposto para tal atividade). E por um inesquecível passeio de veleiro de luxo com o Red Hot Chili Peppers --um dos poucos momentos em minha carreira onde eu posso falar que cruzei a barreira do profissional e conversei como "amigo" com alguns de meus ídolos, Flea e Anthony Kiedis.

Olhando para trás, fica até difícil imaginar a excitação de ter artistas tão importantes. Mesmo com dois Rock In Rio nas costas, o Brasil ainda não era uma escala prioritária de nenhuma banda --talvez de alguns "dinossauros", mas não de artistas que estavam no auge. E para a MTV, que fazia um banquete com a música alternativa, era sempre uma oportunidade de ouro. Hoje, com pessoas praticamente tendo que escolher em que show elas vão, seja pelo preço estratosférico dos ingressos ou mesmo pela abundância de escolha, essas lembranças do Hollywood Rock (em especial este de 1993) formam um belo souvenir de uma época em que um crachá com a frase "Access to all areas" (aquele que dá acesso livre a todas as áreas do evento) era a coisa mais preciosa que você poderia desejar.

Layne Staley era muito pé no chão, gente boa, alto astral
Andreas Kisser, guitarrista do Sepultura


Em 1992 fizemos uma turnê do Sepultura com o Alice In Chains e com o Ozzy Osbourne pelos Estados Unidos. Ficamos um mês com os caras do Alice In Chains e criamos uma amizade forte, principalmente com o Layne Staley (vocalista). Quando vieram para o Hollywood Rock, acho que chegamos juntos no aeroporto de Guarulhos, mas lembro que nos encontramos lá e fomos juntos ao Morumbi para os shows.

Vi todos os shows, do lado do palco. Layne colocou o Sepultura e a equipe lá dentro, trocamos ideia com todos que estavam por lá. O Dave Grohl era fã do Sepultura, usava boné e camiseta da banda. Conversamos bastante, foi uma tarde legal, mas o show do Nirvana é que não rolou. Kurt Cobain estava meio down, sem vontade. Eu pirei mesmo foi no show do Red Hot Chili Peppers, foi o melhor de todos.

Passamos a maior parte com o Alice In Chains. Não me lembro muito, mas não tinha ninguém malucão, estava bem tranquilo. Quando Layne morreu, em 2002, foi um choque. Ele era muito pé no chão, gente boa, alto astral. Foi muito triste.

O Hollywood Rock de 1993 colocou o Brasil no mapa das bandas. O Rock In Rio trouxe alguns artistas de peso, mas só bandas decadentes vinham para o país naquela época. Ali vimos que o Brasil tinha condições de fazer um festival de grande porte e trazer artistas no auge. A cena musical tinha mudado, principalmente com o Nirvana.


Metade da plateia foi embora antes do fim porque não estava mais divertido
Pablo Miyazawa, editor-chefe da revista "Rolling Stone Brasil"


Quando vi o show do Nirvana, eu confesso que não percebi que havia um momento histórico acontecendo ali, e acho que pouca gente percebeu. A banda estava no auge e não entregou o que se esperava dela no palco. Os shows internacionais de grande porte no Brasil eram escassos naquela época, então existia uma expectativa maior por performance, por entrega. Existia essa sensação de que era uma chance única.

Mas por pior que estivesse o estado do Kurt Cobain, ninguém poderia imaginar que 15 meses depois ele estaria morto. Sabia-se dos problemas com drogas e familiares, mas sem internet a gente ficava refém do pouco que se falava na imprensa sobre o estado das coisas. E o que se via no palco era uma banda desinteressada e não exatamente preocupada em cumprir um papel ou fazer jus ao sucesso.

Eu fui embora do show antes mesmo de acabar. Saí durante os covers, porque achava que estava se arrastando muito e acabaria ali mesmo. Nada dava a entender que voltaria ao normal, e eles já tinham tocado a maioria dos hits do "Nevermind". Se fosse hoje, dificilmente eu sairia antes do final, pelo simples fato de querer saber o que aconteceria depois. Mas pelo menos metade da plateia foi embora também. Não estava mais engraçado ou divertido.

O fato de o L7 ter sido muito bom e energético ajudou a estragar a percepção a respeito do Nirvana. O que elas tiveram de positivo, o Nirvana teve de negativo. Na noite anterior, o Red Hot Chili Peppers fez um show bem chato e anticlimático, e o show do Alice In Chains foi bem mais interessante, teve pouca conversa e pouco espaço para baixar a energia do público.

O Hollywood Rock parecia o festival óbvio que todo mundo tinha de ir. Todos meus amigos foram, não havia dificuldade de comprar ingresso ou de superlotação. O hype era uma coisa mais pulverizada. Chamava atenção o fato de as atrações serem bandas que estavam acontecendo naquele momento no Brasil. O estouro delas havia sido há um ano, então era primeira vez que um festival conseguia trazer grupos que estavam no auge. Aquilo tudo era algo grandioso, mas era destinado a um nicho específico.

Carentes de shows de grandes nomes do rock à época, fãs lotaram os shows do Hollywood Rock levando suas camisas xadrez, calças rasgadas e abusando dos chamados 'mosh', a prática de saltar nos braços das multidão; veja fotos

A energia do show estava legal, mas deixou muito a desejar
Andria Busic, vocalista e baixista do Dr. Sin


O Dr. Sin tinha acabado de voltar de uma temporada nos Estados Unidos, onde fizemos uns cinco shows por lá. Voltamos e nosso primeiro show depois disso já foi no Hollywood Rock. Tocamos no mesmo dia de Nirvana, L7 e Engenheiros do Havaí.

Lembro que estávamos passando o som à tarde e o Dave Grohl estava com a mulher dele assistindo, tirando fotos nossas, e depois conversamos com eles. Todo mundo esperava muito do show do Nirvana. Era a banda do momento, e continuou sendo por muito tempo. Mas o Kurt Cobain parecia estar com problemas, estava muito mal. Ele entrou no palco muito louco e não sabia o que fazer. Foi legal porque a energia do show estava legal, mas deixou muito a desejar. No final, acabou ganhando um status de histórico.

Para o Dr. Sin, o festival foi muito especial, era uma época muito para o rock e para o heavy metal. Na época não havia tantos shows no Brasil, como hoje, que o país tornou-se rota fixa das bandas grandes. O Rock In Rio abriu o espaço e o Hollywood Rock firmou a rota. As bandas nem acreditavam no público que tinham aqui. Foi inesquecível.

by: UOL

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